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Todos juntos pela arte

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Arte
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SÃO PAULO Sarau reúne na cidade de Santo André refugiados e imigrantes; eles vão cantar, dançar e recitar

Aboubacar Sidibé, Oula Al Saghir e Jéssica Areias têm nomes, idiomas, histórias e culturas completamente diferentes, mas sabem falar a mesma língua quando o assunto é arte. Também compartilham o fato de terem deixado seus países para viverem no Brasil.
Eles e outros artistas – Os Escolhidos e Yannick Delas, do Congo – foram convidados para o primeiro Sarau Imigrantes e Refugiados, que acontece sábado, a partir das 11h, no Espaço Vivências e Convivências do Instituto Acqua, em Santo André. “Está se falando bastante sobre essas pessoas e resolvemos reuni-las. O evento será gratuito”, adianta o curador Lela Lopres.

A proposta do sarau, segundo o Instituto, é “discutir a situação dos refugiados no Brasil e também colocar em pauta a diversidade cultural desses povos. Por meio de manifestações artísticas, os músicos e poetas irão expressar suas dificuldades e preocupações, dentro de realidade diferente da que estavam habituados antes de deixarem seus países.” Durante todo o dia vão acontecer shows, apresentações de dança e recitais de poesia.


Aboubacar Sidibé, do Ballet Fareta Sidibé, está ansioso pelo evento. Nascido na Guiné Conacri, África, atualmente mora em São Bernardo e dirige o Centro Cultural da Guiné, que fica no bairro da Liberdade, na Capital. De acordo com ele, a principal diferença quando se fala na arte típica dos dois países é que “para nós, na África, trata-se de cultura, não de religião”. Lá, a cultura faz parte da formação, se aprende na escola, é obrigatório. “Não importa se é crente, católico ou muçulmano, todo mundo pratica a tradição”, explica Sidibé, que é apaixonado pelo Brasil.


Outra africana, a angolana Jéssica Areias, divide o mesmo amor pelo País. Ela gosta tanto da cultura brasileira que decidiu estudar música aqui, algo que faz desde 2009. “Escolhi o Brasil pelo grande contato que sempre tive com a MPB. Sou fã da Elis Regina e, no sarau, vou apresentar mistura com meu trabalho autoral, Olisesa, que significa licença em Umbundo, dialeto de origem bantu, das regiões Centro e Sul de Angola”, conta.


Jéssica diz acreditar que apesar das “represálias” – referindo-se aos tempos difíceis em que a “arte representa uma ameaça por fazer pensar” – ainda existem espaços que permitem que os artistas sejam livres. “O sarau é sensível por retratar a realidade. São Paulo, uma cidade tão cosmopolita, reunindo tantas sonoridades do mundo, necessitava de algo que direcionasse o foco para essas culturas, que também contemplam a criação artística contemporânea”.
Livre se sente agora Oula Al Saghir. De ascendência palestina e nascida na Síria, mais especificamente em Homs, canta no grupo Canja Música Árabe. Há dois anos, ela e a família – marido, filhos, irmãos e mãe – fugiram da guerra. “No quarto mês do meu primeiro filho, em Damasco, um avião de guerra jogou uma bomba ao lado da minha casa. Precisamos nos esconder na mesquita. Desmaiei de medo”, relembra Oula, que agora se sente mais segura, apesar das dificuldades de adaptação, e feliz por poder cantar.


“Lá na Síria eu cantava por passatempo, com meu pai. Depois que mudei, surgiu o Canja. Espero que no evento de sábado (ela vai se apresentar ao lado de Nelson Lin) as pessoas gostem do meu trabalho. Isso vai me encorajar a continuar o que meus pais começaram. É o meu sonho e era o do meu pai, que morreu na Síria há três anos. Ele não chegou a me ver no Canja, mas estou certa de que me ouve”, encerra.

SERVIÇO
Imigrantes e Refugiados – Sarau. Sábado, a partir das 11h. Instituto Acqua (Avenida Lino Jardim, 905), em Santo André. Entrada gratuita.

 

 

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