Pelo uso obrigatório de máscaras

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Grupos pró-democracia, que reúnem diferentes movimentos de esquerda, se reúnem para ato contra o presidente Jair Bolsonaro, na Avenida Paulista, em São Paulo, na tarde deste domingo (14/6) . Bastaria um infectado sem máscara para contaminar dezenas — Foto: Fábio Vieira/Estadão Conteúdo

Grupos pró-democracia, que reúnem diferentes movimentos de esquerda, se reúnem para ato contra o presidente Jair Bolsonaro, na Avenida Paulista, em São Paulo, na tarde deste domingo (14/6) . Bastaria um infectado sem máscara para contaminar dezenas — Foto: Fábio Vieira/Estadão Conteúdo

O Congresso Nacional deveria determinar o mais rápido possível a obrigatoriedade do uso de máscaras em todos os espaços públicos, em todo o território nacional. Agora que estados e municípios começam a liberar a retomada da circulação sem nenhum tipo de respaldo científico, a obrigatoriedade das máscaras é a medida mais simples e eficaz para deter a pandemia – aquilo que os americanos chamam de “low hanging fruit” (a fruta da árvore ao alcance da mão).

É verdade que, por si só, a medida dificilmente bastaria para reduzir a taxa de contágio, conhecida pela letra R, abaixo de 1 – nível em que cada infectado transmite o coronavírus Sars-CoV2 a menos de uma outra pessoa, e a epidemia se extingue naturalmente com o tempo. Mas novos estudos têm comprovado que, se adotadas em massa, as máscaras reduzem a transmissão de modo significativo.

O uso de máscaras configura um caso clássico daquilo que os economistas chamam de “externalidade positiva”, situação em que a ação de cada indivíduo resulta em benefício coletivo. O efeito principal da máscara não é a proteção de quem usa, mas dos outros. Quando alguém está infectado e contagioso, mas não sabe disso nem apresenta sintomas, ela pode evitar o contágio. Mesmo máscaras caseiras exercem efeito protetor e, quando disseminadas em quantidade suficiente, contribuem para deter a transmissão por meio de gotículas de saliva ou partículas conhecidas como aerossóis (leia mais aqui).

Tal conclusão vem sendo corroborada a cada nova pesquisa. “A via de transmissão aérea é altamente virulenta e dominante na disseminação da Covid-19”, escrevem os autores de estudo da revista da Academia Nacional de Ciências americana (PNAS). “Nossa análise revela que a diferença determinante na pandemia está entre o uso obrigatório de cobertura facial ou não. Tal medida protetora reduz significativamente o número de infecções.”

Os pesquisadores compararam a adoção de máscaras na China, na Itália e em Nova York durante os períodos críticos da pandemia. Concluíram que a obrigatoriedade gerou 78 mil casos a menos na Itália entre 6 de abril e 9 de maio e 66 mil a menos em Nova York entre 17 de abril e 9 de maio. “Concluímos que o uso de máscaras em público corresponde ao meio mais eficaz para prevenir a transmissão e que essa prática barata, em conjunto com distanciamento social, reastreamento de contatos e quarentena, representa a oportunidade mais provável para combater a pandemia de Covid-19”, afirmam.

O resultado é corroborado por uma revisão de estudos, que ainda aguarda a aprovação dos pares, divulgada no repositório Preprints. “A evidência preponderante sugere que o uso de máscaras reduz a transmissão. O uso em público é mais eficaz quando a adoção é alta. Reduziria substancialmente o custo em vidas e o impacto econômico, a um custo baixo de intervenção. Recomendamos a adoção em público de máscaras de pano como uma forma de controle na fonte imediatamente, em conjunto com estratégias de higiene, distanciamento e rastreamento de contatos”, escrevem os autores.

Um dos modelos usados para avaliar o efeito no contágio estima que seria possível reduzir R até abaixo de 1, caso 80% das pessoas usassem máscaras com uma eficácia mínima capaz de reter apenas 60% dos vírus, compatível com as caseiras, feitas de pano de algodão. (Elas detêm gotículas, mas não barram todos os aerossóis, nem têm as fibras que retêm 95% das nanopartículas, como as máscaras N95.)

Como a máscara não é tão eficaz para proteger quem usa, não há um incentivo irresistível para que seja adotada. Num país de grandes aglomerações urbanas e alta densidade habitacional, como favelas ou cortiços, locais onde o isolamento social se revela inviável, é ainda mais importante. Trata-se de um caso em que mesmo liberais empedernidos aceitariam a intervenção do Estado para tornar as máscaras obrigatórias. A medida é ainda mais urgente num momento em que os governos estaduais relaxam as quarentenas à revelia do consenso científico.

O uso obrigatório de máscaras pode ser comparado aos radares de velocidade instalados nas avenidas de grande circulação. Em São Paulo, o programa de redução de velocidade foi responsável por uma queda de 22% nos acidentes, num período de 18 meses entre 2015 e 2017, concluiu um estudo no Journal of Public Economics. Depois de abandonado, as mortes voltaram a subir, pois não havia mais o incentivo (a multa) para que os motoristas mantivessem o comportamento em prol do benefício coletivo.

Os governos devem obviamente tomar outras medidas para deter a Covid-19. Máscaras não bastam para evitar o contágio pelo vírus em aglomerações, como jogos de futebol, cultos religiosos, espetáculos artísticos, cinemas ou manifestações como a de ontem em São Paulo. Um estudo na Emerging Infectious Diseases verificou que, no Japão, 3.184 casos surgiram em 61 focos a partir de superdifusores. Na média, 10% dos infectados respondem por 80% do contágio. Basta um sem máscara para contaminar dezenas de pessoas (leia mais aqui).

A dificuldade para controlar aglomerações só reforça a necessidade das máscaras, cujo benefício é evidente. Tome o caso do homem infectado que voou da China a Toronto usando máscara, diagnosticado depois de chegar ao Canadá. Não transmitiu o vírus a nenhum passageiro ou tripulante. Compare ao ensaio do coral no estado americano de Washington em que, mesmo à distância, um único infectado transmitiu a doença a 45 dos outros 60 presentes (dois morreram).

“Não precisamos evitar toda transmissão de toda gotícula ou partícula viral”, escreve em artigo Trisha Greenhalgh, uma das defensoras mais eloquentes das máscaras. “Como na lavagem das mãos ou no distanciamento social, o objetivo é mais modesto: alcançar uma redução substancial na taxa de transmissão do vírus.”

Não há, basicamente, nenhuma contra-indicação às máscaras, exceto para crianças com menos de dois anos. A própria Organização Mundial da Saúde (OMS), que antes resistia à obrigatoriedade por julgar a proteção ineficaz, entendeu enfim que o objetivo não é proteger quem porta a máscara, mas controlar o contágio na fonte. Trata-se uma questão de benefício coletivo que exige ação das autoridades. Passou da hora de tornar as máscaras obrigatórias nas ruas, transportes, ambientes de trabalho – em todos os espaços públicos de todo o Brasil.

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