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sexta-feira,6 agosto 2021

17 ANOS

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    O debate sobre qual presidente americano pode ser considerado o mais desonesto


    Trump costumava ser acusado de ter total desprezo pela verdade — mas seus predecessores também deixaram um legado de inverdades. Os ex-presidentes Ronald Reagan, Lyndon B. Johnson, Donald Trump, Bill Clinton e Richard Nixon
    BBC
    O ex-presidente americano Donald Trump costuma ser acusado de ter um total desprezo pela verdade. No entanto, seus predecessores também deixaram um legado de inverdades. Nesse quesito, como será que Trump se compara a eles?
    Quando Saddam Hussein, então presidente do Iraque, invadiu o Kuait, em agosto de 1990, o então presidente americano George H.W. Bush afirmou: “Não vamos tolerar isso”.
    Mas, enquanto as tropas dos EUA se dirigiam para o Golfo Pérsico, o povo americano tinha dúvidas sobre a justificativa para uma ação militar.
    O governo do Kuait em exílio logo contratou uma empresa de relações públicas dos Estados Unidos, a Hill & Knowlton, cujo escritório em Washington DC era dirigido pelo ex-chefe de gabinete de Bush.
    A empresa treinou uma suposta testemunha, apresentada como uma menina de 15 anos chamada “Nayirah”, para falar diante de uma comissão do Congresso americano em outubro de 1990. Ela contou que soldados iraquianos haviam entrado em um hospital no Kuait, retirado bebês de incubadoras e os deixado no chão para morrer.
    Foi informado aos repórteres que Nayirah estava usando um nome falso por medo de represálias contra sua família.
    Só depois da guerra, veio à tona que ela era filha do embaixador do Kuait nos Estados Unidos. E sua história era completamente infundada, como John MacArthur detalha em seu livro Second Front, Censorship and Propaganda in the 1991 Gulf War (“Segundo Front: Censura e Propaganda na Guerra do Golfo de 1991”, em tradução literal).
    Há gravações de Bush citando publicamente essa história pelo menos seis vezes enquanto tocava a corneta da guerra. “Bebês retirados de incubadoras e espalhados como lenha pelo chão”, disse o presidente, em uma ocasião, durante discurso às tropas americanas na Arábia Saudita.
    MacArthur afirma em seu livro que a farsa ajudou a angariar apoio popular para a ação militar.
    Em janeiro de 1991, a resolução de guerra de Bush foi aprovada por uma margem estreita no Senado. Seis senadores citaram a história da incubadora como justificativa para autorizar o conflito, observa MacArthur.
    A Operação Tempestade no Deserto foi lançada dias depois.
    A ironia é que parece que bebês realmente morreram depois de serem removidos das incubadoras durante a guerra. Só que isso supostamente aconteceu em um ataque aéreo de grandes proporções liderado pelos Estados Unidos.
    Na primeira noite do bombardeio, quando faltou luz em meio às explosões, mães em pânico retiraram seus recém-nascidos das incubadoras em um hospital pediátrico de Bagdá, e os abrigaram em um porão sem calefação.
    Mais de 40 crianças morreram, de acordo com o jornal americano “New York Times”. E se somaram aos milhares de civis que perderam a vida durante o conflito de 42 dias.
    Embora nunca tenha sido constatado se Bush sabia ou não que a história das incubadoras que contava repetidamente era infundada, geralmente se espera que a Casa Branca verifique as afirmações feitas pelo presidente — sobretudo uma tão escabrosa como essa.
    Os jornalistas americanos não conseguiram desmascarar o testemunho de Nayirah, a não ser depois da guerra. A polêmica foi omitida de uma recente biografia de Bush, assim como da retrospectiva de seu governo quando ele morreu em 2018.
    No entanto, os sinais de desonestidade presidencial de Donald Trump fizeram os checadores de dados da imprensa trabalhar mais do que nunca.
    O jornal americano “Washington Post” mantém um banco de dados de declarações de Trump — mais de 30 mil delas — que afirma serem falsas ou enganosas.
    Muitas dessas afirmações — sobre golfe, sua riqueza ou até mesmo se nevou em um de seus comícios — parecem relativamente insignificantes.
    Outras, como alegações de que enganou deliberadamente o povo americano sobre a gravidade do coronavírus, ou suas acusações infundadas de que a eleição para a Casa Branca de 2020 foi fraudada, são muito mais prejudiciais.
    Benjamin Ginsberg, autor de The American Lie: Government by the People and Other Political Fables (“A mentira americana: o governo do povo e outras fábulas políticas”, em tradução literal), diz que, quando se trata de falsidades presidenciais, algumas têm muito mais consequências do que outras.
    Ele cita declarações enganosas do filho de Bush, o ex-presidente George W. Bush, ao vender uma continuação da guerra no Iraque para o povo americano.
    Entre elas, estava minimizar as dúvidas que persistiam sobre os informes de inteligência que sinalizavam que o presidente iraquiano, Saddam Hussein, possuía armas de destruição em massa, sugerindo que ele poderia ter até mesmo uma arma nuclear, além de afirmar que era aliado da Al-Qaeda.
    Ginsberg diz que as mentiras que levam à ação militar são as mais prejudiciais de todas — e que, nesse sentido, Trump não é tão culpado quanto alguns de seus antecessores a esse respeito. “O problema é que o processo de seleção do presidente americano é fundamentalmente falho e produz monstros”, diz ele, que também é professor de ciências políticas na Universidade Johns Hopkins, nos EUA. “Requer anos de campanha, e apenas os indivíduos mais arrogantes, ambiciosos e narcisistas estariam dispostos a fazer tal coisa.”
    Houve um tempo em que os americanos depositavam uma confiança quase infantil em seus comandantes-em-chefe.
    Eles eram venerados como semideuses.
    Quando isso mudou?
    Muitos historiadores indicam que essa quebra de confiança ocorreu a partir do mandato de Lyndon B. Johnson, embora ele estivesse longe de ser o primeiro presidente a enganar o povo americano.
    Robert Kennedy, irmão de John F. Kennedy, disse certa vez sobre Johnson: “Ele mente continuamente sobre tudo. Ele mente até mesmo quando não precisa mentir.”
    Lyndon B. Johnson sucedeu John F. Kennedy após seu assassinato
    Getty Images/BBC
    As mentiras de Johnson sobre a Guerra do Vietnã incluíram falar sobre um ataque naval em agosto de 1964, que nunca aconteceu, no Golfo de Tonkin, para intensificar dramaticamente o conflito. “Não estamos prestes a mandar jovens americanos a nove ou 10 mil milhas de casa para fazer o que os jovens asiáticos deveriam fazer por conta própria”, disse ele aos eleitores dois meses depois, em Akron, Ohio.
    Após ser eleito, Johnson mandou as primeiras tropas de combate dos EUA para as selvas e arrozais da zona de guerra do Vietnã, para onde terminaria enviando mais de 500 mil soldados.
    A constante dissimulação de Johnson sobre esse desastre de política externa envenenou a vida política americana e levou jornalistas a cunhar um termo usado como eufemismo sobre sua gestão: a lacuna de credibilidade.
    Seu sucessor, Richard Nixon, concorreu ao cargo prometendo dar um fim “honroso” à carnificina no Vietnã, antes de ampliar ainda mais o conflito bombardeando secretamente o Camboja, que era neutro.
    No entanto, foi outro encobrimento — o escândalo Watergate, uma investida fracassada de seus capangas para grampear adversários políticos — que destruiu a Presidência de Nixon.
    Richard Nixon renunciou à Presidência dos EUA devido ao escândalo Watergate
    Getty Images/BBC
    As crianças americanas já foram outrora ensinadas a dizer a verdade com a ajuda de uma história sobre a honestidade presidencial, que por si só era falsa. “Não posso mentir”, é a célebre frase da história sobre a juventude de George Washington, o primeiro presidente dos EUA, que confessa ao pai que partiu a cerejeira com uma machadinha.
    Mas, na verdade, a história foi inventada pelo primeiro biógrafo do presidente.
    O pai da nação não estava isento de mentir.
    Em 1788, ele tentou reescrever a história alegando que tinha sido o visionário estratégico por trás da vitória sobre os britânicos em Yorktown sete anos antes, durante a Guerra de Independência.
    Mas, na verdade, foram seus aliados franceses que planejaram a batalha decisiva na Virgínia.
    Em vez disso, Washington havia defendido obstinadamente a ideia de atacar a cidade de Nova York, como Ron Chernow observa na biografia de 2010 do primeiro comandante-em-chefe dos Estados Unidos.
    Ali estava o pecado original, digamos assim, da falsidade presidencial.
    Algumas mentiras contadas por ocupantes da Casa Branca são totalmente bizarras.
    Thomas Jefferson disse a um naturalista europeu que havia menosprezado a fauna do Novo Mundo que mamutes-lanosos vagavam pelo inexplorado oeste americano.
    Em 1983, o presidente Ronald Reagan afirmou que havia filmado as atrocidades dos campos de extermínio nazistas enquanto servia como fotógrafo do Exército americano na Europa.
    Ele contou essa história ao então primeiro-ministro israelense, Yitzhak Shamir, na Casa Branca.
    O fato é que Reagan nunca deixou os EUA durante a Segunda Guerra Mundial. E poucos se lembram dessa mentira.
    Muitos comentários de Trump que constam no banco de dados do “Washington Post”, sem dúvida, provarão ser igualmente pouco memoráveis. “Nós toleramos mentiras presidenciais desde o início da República”, diz o professor Eric Alterman, autor de Lying In State: Why Presidents Lie – And Why Trump Is Worse (“Mentiras no Estado: por que os presidentes mentem — e por que Trump é pior”, em tradução livre). “Mas Donald Trump é o monstro de Frankenstein em um sistema político que não apenas tolerou mentiras de nossos líderes, mas passou a exigi-las.”
    Para Alterman, a invasão do Capitólio no início deste ano, motivada por teorias da conspiração sobre eleições fraudadas e cabalas satânicas, deixa claro quão longe chegou a influência de Trump na “criação de um mundo irreal”.
    Uma lição cívica útil sobre como um presidente que foi pego mentindo reage longe das câmeras pode ser aprendida com Bill Clinton.
    Em janeiro de 1998, ele negou indignadamente aos repórteres ter tido relação sexual com uma estagiária da Casa Branca, Monica Lewinsky.
    Mas uma investigação para saber se ele havia mentido sob juramento apresentou evidências bastante gráficas de suas ações, incluindo que o presidente havia usado um charuto com ela como brinquedo sexual depois de convidar a jovem de 22 anos para o Salão Oval.
    Em vez de sentir vergonha por enganar a nação, Clinton expressou alívio privadamente, de acordo com a biografia de John F Harris, The Survivor (“O Sobrevivente”, em tradução literal).
    Inclusive, enquanto se preparava para ir à televisão em agosto de 1998 e manifestar publicamente seu arrependimento, o presidente teria dito a um amigo próximo: “A mentira me salvou.”
    Clinton argumentou que as acusações lascivas contra ele a conta-gotas permitiram que o povo americano gradualmente aceitasse suas travessuras, poupando no fim das contas sua vida política.
    Tudo isso é um irônico lembrete das palavras esculpidas na lareira da Sala de Jantar do Estado na Casa Branca: “Que apenas homens honestos e sábios governem sob este teto.”
    Exemplos de mentiras presidenciais
    – Se você gosta do seu plano de saúde, você manterá seu plano de saúde, ponto” — Barack Obama, em 2013, ao falar sobre sua reforma na seguridade de saúde; declaração foi classificada como a mentira do ano pela PolitiFact.
    – “Eliminamos um aliado da Al-Qaeda e … nenhuma rede terrorista receberá armas de destruição do regime iraquiano porque o regime não existe mais” – George W. Bush, em 2003.
    – “Há alguns meses eu disse ao povo americano que não trocava armas por reféns. Meu coração e minhas melhores intenções ainda me dizem que isso é verdade, mas os fatos e as evidências me dizem que não” – Ronald Reagan, em 1987, no Escândalo Irã-Contras, de financiamento a guerrilheiros na Nicarágua.
    – “Ninguém na equipe da Casa Branca, ninguém neste governo, atualmente empregado, esteve envolvido neste incidente bizarro” – Richard Nixon, em 1972, sobre o Escândalo Watergate.
    – Dwight Eisenhower aprovou uma declaração afirmando que um avião espião americano U-2 abatido pelos soviéticos em 1960 era apenas uma aeronave de pesquisa meteorológica. Mais tarde, reconheceu que era mentira, assim como seu “maior arrependimento”.
    – “O mundo recordará que a primeira bomba atômica foi lançada em Hiroshima, uma base militar” – Harry Truman, em 1945, sendo que o alvo era, na verdade, uma cidade, e a maioria dos cerca de 140 mil mortos eram civis.
    – “Seus filhos não serão enviados para guerras estrangeiras” – Franklin Delano Roosevelt aos eleitores em 1940, inclusive enquanto exercitava seus músculos políticos para enfrentar a Alemanha nazista.
    – O México “invadiu nosso território e derramou sangue americano em solo americano” – James Polk em sua mensagem de guerra de 1846 ao Congresso, sobre um ataque que ele havia provocado em um território que era, na verdade, alvo de disputa.
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