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Garota segura placa com o número 6 durante o ‘sorteio do avião presidencial’ na Cidade do México, na terça-feira (15) — Foto: Gustavo Graf/ Reuters

Garota segura placa com o número 6 durante o ‘sorteio do avião presidencial’ na Cidade do México, na terça-feira (15) — Foto: Gustavo Graf/ Reuters

Ao anunciarem o número 5.349.161, as famosas “crianças gritonas” da Loteria Nacional do México deram início, na terça-feira (15), a um dos sorteios mais aguardados (e divulgados) dos últimos anos no país.

Conhecida como “sorteio do avião presidencial”, a ação pode dar a entender que o governo se livraria do que apontou como um dos maiores símbolos de luxo e desperdício de ex-autoridades do país.

Mas não era bem assim. A “rifa do avião” não sorteava exatamente o avião.

Loteria do México sorteia prêmio equivalente ao valor em dinheiro do avião presidencial

Loteria do México sorteia prêmio equivalente ao valor em dinheiro do avião presidencial

A equipe do presidente mexicano, Andrés Manuel López Obrador, ainda continuará buscando um comprador para o Boeing 787-8, avião que custou US$ 218 milhões (quase R$ 1,1 bilhão em valores atuais) quando foi comprado pelo governo em 2012.

Por outro lado, o prêmio sorteado era o montante equivalente em dinheiro ao valor atual da aeronave: 100 prêmios de 20 milhões de pesos cada (quase R$ 500 milhões ao todo, no câmbio atual).

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Foto de 27 de julho mostra o avião presidencial mexicano no hangar presidencial no Aeroporto Internacional Benito Juarez, na Cidade do México — Foto: Henry Romero / Reuters

Foto de 27 de julho mostra o avião presidencial mexicano no hangar presidencial no Aeroporto Internacional Benito Juarez, na Cidade do México — Foto: Henry Romero / Reuters

Em prol do sistema de saúde?

O objetivo inicial do sorteio acabou, para dizer o mínimo, envolvido em polêmicas pelo país.

O presidente anunciou em fevereiro que o valor arrecadado com a compra dos bilhetes da loteria seria destinado à compra de equipamentos médicos para hospitais.

Mas as vendas estiveram abaixo do esperado, e o governo decidiu comprar cerca de 1 milhão de bilhetes para distribuir entre centros médicos, com a condição de que, em caso de vitória, o prêmio seria investido na melhoria das condições do lugar.

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Sorteio gerou uma onda de memes na internet — Foto: Twitter/BBC

Sorteio gerou uma onda de memes na internet — Foto: Twitter/BBC

Ou seja, o governo gastou seu próprio dinheiro para que os hospitais pudessem concorrer a um prêmio (financiado, por outro lado, também com recursos do Executivo), em vez destinar esse valor diretamente ao setor de saúde e não deixá-lo ao sabor do acaso.

“É um espetáculo completo”, critica Duncan Wood, diretor do Instituto para o México do think tank Wilson Center.

“A ideia de levantar recursos para o sistema de saúde do México não é ruim, o problema é que o governo deveria colocar recursos sem necessidade de sorteio”, afirmou o analista em entrevista à BBC News Mundo (serviço da BBC em espanhol).

Mas López Obrador voltou a defender o sorteio na segunda-feira (14).

“Todo esse dinheiro, repito, será usado para comprar equipamentos médicos por meio de uma licitação pública para usar o dinheiro. (…) E haverá transparência sobre o destino desses equipamentos para que possamos acompanhar sua destinação.”

No início do sorteio, a secretária de governo do México, Olga Sánchez Cordero, afirmou estar “emocionada pela quantidade de gente que apoia o presidente” e quer a transformação do país.

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Foto de arquivo mostra o interior de um avião presidencial mexicano — Foto: Henry Romero / Reuters

Foto de arquivo mostra o interior de um avião presidencial mexicano — Foto: Henry Romero / Reuters

Símbolo contra governos anteriores

O avião presidencial protagonizou uma das histórias mais excêntricas e rocambolescas do México nos últimos meses.

Desde que foi eleito presidente, López Obrador classificou a luxuosa aeronave como um “insulto ao povo” e um exemplo dos excessos dos presidentes anteriores.

“Nem o Obama tem esse avião”, é uma de suas frases mais marcantes.

O mandatário promete vender a aeronave desde que chegou ao poder. Mas percebeu que não era tão fácil encontrar um comprador para uma aeronave modificada para atender caprichos de seus antecessores na Presidência.

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Foto de arquivo mostra o presidente do México, Andrés Manuel López Obrador, com um exemplo do bilhete da rifa — Foto: Mexico’s Presidential Press Office via AP

Foto de arquivo mostra o presidente do México, Andrés Manuel López Obrador, com um exemplo do bilhete da rifa — Foto: Mexico’s Presidential Press Office via AP

Em um mercado tão pequeno, o custo de reconfigurá-lo para ser usado de maneira comercial é tão grande que dificilmente deve atrair compradores interessados.

“Segundo veículos jornalísticos estrangeiros, há algumas ofertas. Mas não pelos US$ 130 milhões que o governo quer, mas por US$ 60 milhões ou US$ 70 milhões”, disse Luis Rubio, presidente do think tank México Evalúa, à BBC News Mundo.

“Acho que eles não terão escolha a não ser aceitar uma dessas ofertas, porque o custo mensal do avião está ficando cada vez maior.”

Em meio a mais essa dor de cabeça, o presidente apresentou em janeiro uma proposta inusitada: sortear o avião entre a população.

As redes sociais mexicanas, é claro, mais uma vez esbanjaram criatividade com piadas e memes em que se perguntavam onde o presidente pensava que eles poderiam estacionar o avião caso fossem sorteados.

Ciente da impossibilidade de concretizar sua proposta, o governo preciso reformulá-la.

“Não queremos lhe dar um problema, mas um prêmio que você goste”, disse o presidente mexicano, conhecido como AMLO, ao anunciar o sorteio do valor do avião.

Segundo Rubio, do México Evalúa, “o presidente viu no avião um símbolo para desqualificar governos anteriores” numa espécie de propaganda a seu favor. “Essa coisa toda de loteria é uma farsa, uma forma de distrair o público.”

“A verdade é que isso faz o México não parecer um país sério, com um governo que não é sério e que não resolve seus problemas reais”, diz Wood, do Wilson Center.

Mas também houve quem defendesse que o sorteio não passava de uma iniciativa simbólica e que o importante era o seu propósito de caridade para beneficiar a saúde.

“Com avião ou sem avião, o sorteio pretende ser um ato de solidariedade”, disse o jornalista mexicano Julio Astillero em um dos vídeos vistos em seu canal no YouTube.

Problemas com adesão ao sorteio

O governo então colocou à venda bilhetes a fim de arrecadar até US$ 142 milhões (quase R$ 750 milhões, pelo câmbio atual) com o objetivo de comprar equipamentos para o setor de saúde, que sofre carências graves desde antes da pandemia.

Em troca, na terça-feira foram sorteados prêmios que totalizam o equivalente ao custo do avião segundo o Instituto de Devolução ao Povo Roubado, instituição pública que se dedica a leiloar bens confiscados em operações contra o crime e a corrupção.

O problema é que a população mexicana acabou não se empolgando muito com a compra de um dos 6 milhões de ingressos vendidos por 500 pesos (cerca de R$ 126) e, até 12 de agosto, apenas um terço dos números havia sido vendido.

O governo fez diversos esforços para aumentar as vendas, como um jantar organizado pelo presidente com uma centena de empresários em fevereiro. Na ocasião, alguns convidados criticaram ter encontrado sobre a mesa um documento pedindo seu compromisso de contribuir com pelo menos R$ 5 milhões para o sorteio.

No final de agosto, o presidente embarcou pela primeira vez no avião para gravar um vídeo promocional no qual incentivava os mexicanos a participarem. “Compre seu pedacinho, vamos fazer história.”

Participação dos hospitais

Um dos pontos mais controversos em torno dessa história foi o anúncio de que o Instituto de Saúde e Bem-Estar (Insabi) compraria cerca de 1 milhão de bilhetes (ou um sexto do total) para serem distribuídos entre hospitais.

“Se ganharem um prêmio, os trabalhadores daquele hospital vão decidir como usar os 20 milhões: seja para equipamentos, para melhorar a situação do hospital, para uniformes, para proteção de pessoal, para ambulância…”, disse AMLO.

Segundo o mandatário, esses recursos seriam oriundos de apreensões feitas pela Procuradoria-Geral da República destinadas ao Instituto de Devolução do Furto ao Povo.

Diante dessa ideia, muitos questionaram se não teria sido mais conveniente para os hospitais receberem diretamente o valor econômico gasto na compra dos bilhetes do sorteio.

“Existe um custo de processamento na Loteria Nacional que o governo usa para comprar os bilhetes, então a entrega direta do valor representaria muito mais dinheiro para os hospitais. Essa é a contradição que aponta a farsa, não tem como para escapar disso”, critica Rubio, do México Evalúa.

Wood, do Wilson Center, destaca que “alguns hospitais vão ganhar alguma coisa, mas outros não vão ganhar nada e vão sofrer por não ter a verba necessária. Isso não atende às necessidades das pessoas, mas sim à probabilidade de ganhar um sorteio. Isso não é uma política de saúde séria.”

Até o dia 11 de setembro, quase 70% dos ingressos disponíveis foram vendidos, segundo o diretor da Loteria Nacional. “Cumprimos a meta de conseguir pagar os prêmios”, disse AMLO.

O governo garantiu que, caso o vencedor fosse um bilhete não comprado, o prêmio seria entregue ao Insabi para aquisição de equipamentos médicos.

Como até agora não se sabe se algum centro médico foi um dos sortudos do sorteio realizado na terça-feira, continuam as críticas sobre se o sistema de saúde mexicano poderia ter se beneficiado mais com uma condução diferente desta iniciativa.

Mas, acima de tudo, o que o sorteio do avião em que o avião não foi sorteado não definiu foi o futuro do avião presidencial.

“Isso tudo foi um show que não resolve nada e em algum momento o presidente terá que dizer algo sobre o que fará com ele”, conclui Wood, do Wilson Center.